Quinze idiomas e vinte e quatro caras novas
Numa única semana o jogo passou a falar quinze idiomas, ganhou vinte e quatro criaturas próprias e rodou pela primeira vez num celular. Tudo isso chegou aos jogadores numa grande atualização em 16 de outubro.
Onze idiomas em um dia
Em 4 de outubro o jogo falou inglês pela primeira vez. No dia seguinte chegaram mais onze traduções: espanhol, português do Brasil, alemão, francês, italiano, polonês, turco, indonésio, filipino, vietnamita — e, na manhã do dia 6, ucraniano. Aí veio a frase: “A gente precisa de uns quinze idiomas”. No dia 6 entraram o japonês e o árabe.
Com esses dois foi preciso ensinar coisas novas ao jogo. O japonês tem sua segunda fonte, com 3 207 caracteres: ela só é baixada por quem escolhe japonês, e para os outros não custa nem um byte. Lá as linhas quebram pelas regras japonesas: uma linha não pode começar com ponto ou vírgula, nem terminar com parêntese de abertura. O árabe é escrito da direita para a esquerda, e as letras se ligam e mudam de forma conforme as vizinhas. Até a setinha “►” nos menus em árabe apontava para fora do texto, e não para ele — tivemos que virá-la.
Foi traduzido tudo o que o jogador lê: menus, janelas, dicas, mensagens do servidor e nomes de itens — mais de dez mil linhas por idioma. Traduzimos linha por linha, lendo onde a linha fica e o que ela significa, sem tradutor online. Para que um mesmo conceito tenha sempre o mesmo nome, cada idioma tem seu próprio glossário de 418 conceitos. O idioma é escolhido numa página em que cada um aparece escrito nele mesmo: “Deutsch”, “日本語”, “العربية”. Até os comandos que o jogador digita são entendidos no idioma dele. As traduções vão ser refinadas — se você vir alguma imprecisão, fale com a gente.
Só a anarquia
Em 8 de outubro decidimos: por enquanto fica só a anarquia. A entrada é direto no mapa do spawn, e a sobrevivência, as ilhas e a Onda Zumbi guardamos até tempos melhores. Guardamos mesmo: os mapas, o código, os itens e as carteiras dos jogadores estão intactos e voltam junto com os modos.
Vinte e quatro caras novas
No mesmo dia decidimos que parte das criaturas do mundo tinha uma cara conhecida demais. Mantivemos o comportamento e inventamos todo o resto de novo: nome, corpo, voz e ovo de invocação. Na manhã de 9 de outubro o mundo já tinha vinte e quatro criaturas próprias. O Barril de Pólvora — um barril de carvalho andante em duas perninhas curtas, com pavio e uma faísca acesa. A Miragem — uma figura altíssima de vidro esfumaçado, com frestas lilás no lugar dos olhos. O Espantalho — um pássaro recheado de palha, de sobrecasaca rasgada, com botões no lugar dos olhos e a boca costurada. A Nuvem Trovejante — uma nuvem de tempestade flutuante com fios de chuva. O Aríete — uma fera pesada com testa blindada e chifres enrolados. A Corrente de Ar — um redemoinho de cubinhos em volta de um rosto pálido.
Os nomes foram escolhidos em grupos, como famílias: o povo das aves — a Pega, o Picanço e o Espantalho; a parentada bovina — o Bisão, o Bisão Carniçal e o Aríete; o bando de foras da lei — o Rapineiro, o Degolador, o Invocador e o Vespão; o céu — o Bacurau, a Asa de Brasa, a Nuvem Trovejante, a Corrente de Ar e a Serpe Celeste; as profundezas — a Raia Elétrica, a Mantarraia Ancestral, o Sineiro e a Valva; o fogo e o piche — o Tição e o Piche; os espelhos — a Miragem e o Ácaro Cintilante. As vozes não são de ninguém: cada uma foi montada com ondas sonoras e ruído a partir de uma descrição do tipo “rangido de madeira e chiado de pavio” ou “trovão abafado”.
Junto com as criaturas vieram oito itens novos. O Baú-eco — um baú pessoal de 27 espaços. O Cristal Explosivo — é colocado no chão e explode com um golpe, e os cristais vizinhos detonam em cadeia. O Tição dropa a caveira de cinzas, o Piche, o grumo de piche, a Miragem, o estilhaço dela, a Nuvem Trovejante, a lágrima da tempestade, e a Asa de Brasa, a vara de brasa, um ótimo combustível para a fornalha. E a pena noturna do Bacurau conserta as asas.
Nas vilas, no lugar dos comerciantes, se instalaram sete moradores com seus papéis: o Lavrador, o Ferreiro, o Ancião, o Padeiro, o Cuidador do Poço, o Curandeiro Andarilho e o Vigia. Com eles não dá para negociar, mas dá para conversar. O Ferreiro vai dizer: “A ametista se forja firme, o irídio mais ainda, mas é raro. Procure mais fundo”. O Ancião vai avisar: “Dizem que cidades antigas dormem sob a terra. Não acorde quem vive lá”.
O celular que morria de queda
Em 9 de outubro o jogo foi compilado pela primeira vez para Android e iPhone. Desde então, a cada mudança, um bot testador roda o jogo num emulador de celular, entra num servidor novinho, escreve no chat, quebra um bloco e pega ele. O primeiro achado dele foi quase engraçado: num celular lento, o jogador morria de queda um segundo depois de entrar. A primeira mensagem sobre a posição dele trazia a altura provisória de “espera”, a duzentos blocos, e o servidor contava, com toda honestidade, uma queda de quase duzentos blocos.
No dia seguinte, no simulador de iPhone, apareceu outra coisa: os controles na tela tinham joystick, pulo, agachar e a barra — e nenhum caminho para o menu, o chat ou o microfone. Surgiram os botões “MENU”, “CHAT” e “MIC” na borda direita. O primeiro toque em “MIC” travava o app inteiro — consertado. E à pergunta “não dá para jogar na vertical também?” o celular aprendeu a jogar em pé: no retrato a visão era uma fresta estreita e o inventário uma gradinha minúscula; agora a tela vertical tem seu próprio ângulo de visão e espaços grandes, do tamanho do dedo. Nas lojas de apps nada saiu nesses dias — isso vem depois.
Ideias e erros — por platina
Em 10 de outubro apareceu a janela “Ideias e erros”: no menu, na seção “Pessoas”. Lá dá para sugerir uma ideia, relatar um erro e ver suas mensagens. O campo da janela comporta umas cento e vinte letras por vez, então um texto longo é digitado em partes — com o botão “Adicionar mais”. O texto de um relato de erro é lido pelo desenvolvedor fora do jogo: dentro do jogo ninguém vê, nem a administração. E as ideias aceitas e os erros encontrados são premiados com platina.
A noite dos quatro rascunhos
Na noite de 11 de outubro, em pouco mais de uma hora, saíram os rascunhos de quatro novidades de uma vez. Invasões ao mundo selvagem — três eventos: a “Carga explosiva”, que cai do céu e cinco minutos depois explode junto com tudo o que não deu tempo de levar; o “Navio Misterioso”, encalhado e com barris trancados; e a “Corrida do Ouro” — uma chuva de caixas douradas em que as moedas ficam com quem dá o último golpe. Lances no leilão — com caução, prorrogação no último minuto e devolução honesta para quem foi superado. Um minimapa no canto da tela, com marcadores que dá para ver também no próprio mundo. E a “fazenda de amuletos”: o Invocador de um ninho de criaturas, muito raramente, dropa o Amuleto do último suspiro — e a anarquia inteira fica sabendo do achado.
